Na região central de Bonfim Paulista passa o córrego que nomeia Ribeirão Preto, rasgando a vila em duas faixas de terra que se inclinam sobre ele. Apesar de sua considerável presença na extensão urbana, o córrego é pouco visto na paisagem. Atualmente, está praticamente enclausurado em diversos pontos centrais da cidade, e em outros está simplesmente esquecido. Seu leito passa nos fundos de lotes residenciais e comerciais e portanto suas margens estão privatizadas. Alguns lotes residenciais, além de estarem em situação irregular perante a legislação ambienta ainda apresentam problemas estruturais por conta da erosão do solo e, nas épocas de cheias, quando o rio tem o seu nível de água elevado, as edificações sofrem os prejuízos das enchentes e desmoronamentos, principalmente na Rua Carlos Norberto. Além dos problemas estruturais, há uma questão ambiental a ser tratada. A vegetação nativa é inexistente, não se respeita minimamente a área como área de preservação permanente e a região é um dos pontos de recarga natural do aqüífero Guarani.
Kevin Lynch, em seu livro “A Imagem da Cidade”, nomeia como “limites fragmentários” aqueles que se colocam na cidade de forma contínua , mas dos quais só se tem a percepção ocasionalmente quando expostos aos olhos. Neste caso, é exatamente o que acontece: o rio pode ser visto na paisagem em breves momentos de travessia que descaracterizam a linearidade que, teoricamente, representa. Esse delineamento é uma importante ferramenta de reconhecimento do espaço da cidade para referência de seus usuários.
Ainda em Lynch, a questão da continuidade é colocada como ferramenta organizacional que promove ao cidadão a sensação de acabamento e racionalização de sua cidade.
Um LIMITE pode tornar-se algo mais do que um simples obstáculo se permitirmos que dele façam parte algumas qualidades motoras e visuais. [...] Torna-se então mais uma costura do que uma barreira. [...] Se um limite importante possui muitas relações visuais e também de circulação com a estrutura urbana, torna-se uma característica em relação a qual muito pode ser organizado. (LYNCH,K., 1960, A Imagem da Cidade, p.113)
Por conta da dimensão, ainda acanhada, do distrito em questão, pode parecer irrelevante falar da necessidade de referências e orientação dos usuários no espaço da cidade. No entanto, o entendimento da estrutura da cidade confere-lhe identidade e fortalece suas relações com os cidadãos. E o entendimento pode ser adquirido, não somente pela desfragmentação física - no caso, do córrego Ribeirão Preto – mas pela revelação de sua existência na paisagem como elemento natural de delineamento organizacional. O equilíbrio entre as duas instâncias faz-se necessário por se tratar de uma área de urbanização consolidada que precisa de acessibilidade e não pode comprometer sua infra-estrutura viária. Relembrando Geddes, a questão da identidade a que se faz referência é importante no atual contexto de crescimento do distrito. O levantamento dos atributos físicos da paisagem – além dos históricos e culturais já abordados – explicita o seu valor como espaço público, valoriza a região e gera novos usos a serem organizados a partir de um novo pólo.


